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sábado, 18 de abril de 2020

Pode se achegar.


Ela o chamou para entrar, ainda que dividida entre o pedido do corpo e a preocupação da mente. A casa vivia uma bagunça desde dezembro. Mas não era hora de se preocupar. Esperou, sem saber, por essa visita há tanto tempo que algumas roupas no chão e xícaras sujas de café não impediriam que ele, finalmente, entrasse.

- Pode se achegar. - Ela disse, sorrindo.

Recolheu as roupas do chão, aquelas que conseguiu ver, com os olhos apressados. Pôs as xícaras na pia e, mais do que depressa, juntou os papeis espalhados sobre a mesa. Eram os seus últimos rascunhos de textos, ainda esperando por qualquer significado. De amor, quem sabe.

- Esses são os seus escritos? – ele perguntou.
- Tentativas frustradas, eu diria. – ela respondeu.

Ele pediu, com os olhos, permissão para lê-los e ali se demorou. Não piscava enquanto lia. Enquanto a lia. Foi quando ela reparou como num frame, o quanto ele cabia bem naquele espaço. Naquela cadeira de segunda mão. Naquela mesa desgastada pelo tempo em que ela, todos os dias, se debruçava e entregava um pouco de si, à caneta. Mal sabe ele que, se assim quisesse, ela se entregaria novamente. Nua e inteira, a ele, nas próximas horas. Ou nos próximos anos.

[Texto inspirado na canção "Pode Se Achegar".] 

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Centelha divina.

Sabe o que é mais triste? É que em minha cabeça ecoa uma voz que sempre pergunta: “Quem você acha que é para tanto?”. Essa voz, que se faz de amiga, mas na verdade é uma traidora, insiste em me fazer sentir que sou menos. Afinal, o que uma mulher de 27 anos, que ainda sabe pouco da vida, teria de necessário, de significante para dizer ao mundo?

São absurdos como esse que sou obrigada a ouvir. E o mais assustador é que calar essa voz parece ser impossível, a depender da força e energia que emano quando a ouço. De certo, tantas outras pessoas também ouvem vozes similares. Elas martelam incertezas, desvalidam potências, bloqueiam o poder de criação que existe dentro, seja a gente quem for, independente de onde viemos ou de onde estamos hoje.

Ouvi, dia desses, uma reflexão bonita de uma terapeuta que, mesmo em um processo de autodesenvolvimento forte e verdadeiro, também “ouve vozes”. Ela disse algo sobre existir uma centelha divina dentro de cada ser humano. Pode parecer pueril, pode parecer até mesmo imaturo, mas essa afirmação ecoou tão forte dentro de mim quanto aquela voz que sempre questiona e duvida. Se eu posso dar ouvidos à voz pessimista, por que então eu não poderia dar uma chance de abraçar uma mensagem doce como essa?

Centelha divina! Que lindo é pensar nisso. Vejo, ao meu redor, exemplares excepcionais do que venha a ser o divino.  Porque existe vida onde quer que eu olhe. No rio que corre há vida.  No sol que nasce e se põe todos os dias há vida.  Na flor que brota “sozinha” num canteiro há vida.  Deve ser isso o que aquela terapeuta chamou de “divino”. E, se existe algo em mim que flui e pede por ser manifestado no mundo, porque não seria mais um exemplar da centelha divina?

Somos viciados em termos o controle de tudo. Viciados em sermos os responsáveis, os criadores, os donos daquilo que vem de dentro. Mas, contrariando essa tendência, assumo: nem tudo aquilo que crio é de minha autoria, pura e simplesmente. Seria muita vaidade dizer que aquilo que manifesto é só meu. Não é.

Existe muito de rio fluindo, de sol nascendo e se pondo, de flor desabrochando nisso tudo.

Centelha divina...

quarta-feira, 6 de março de 2019

Numa sala alaranjada.

Acho difícil controlar a mente. Embora digam, com assustadora clareza, que essa é a melhor - senão a única - forma de ser feliz de verdade. Chegamos à conclusão (e quando digo “chegamos” é porque ela realmente partiu de alguém além de mim) de que penso em excesso.

Encaro a minha mente como um lugar. Um lugar para onde me teletransporto, sem controle. E, como ditam as leis da física, um mesmo corpo não pode ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Se eu tiver presa “lá dentro”, como posso habitar aqui fora? Parece absurdo dizer que “pensar” pode ser ruim. Mas, é: quando racionalizar se torna um vício e o sentir definha. E é quando os sentidos estão murchos que se torna impossível estar presente. 

Lá dentro – da mente - nem sempre é convidativo. Me lembra uma sala de filmes antigos, cheia de bugigangas. Itens antigos se misturam aos recentemente adquiridos e, assim, fica difícil distinguir do que eu já poderia ter me desfeito. Há coisas que só ocupam espaço. Por vezes, parece ser fim de tarde, mas só imagino... Porque a luz que transpassa às cortinas leves – fechadas - é alaranjada como um pôr de sol. Não chega a ser feia, a sala. Mas, cheia como está, é inóspita, invisitável. E nenhuma sala foi feita para esse fim. Todas anseiam por serem transitáveis (nunca tão receptivas quanto os quartos). Caibo bem nela. Contudo, ainda que tenha uma nostalgia convidativa e uma áurea questionadora sobre os amanhãs, não posso me aconchegar. Preciso vir para o lado de fora.

Nem sempre é hora boa para me retirar no canto alaranjado. Aqui fora, a vida pulsa. Nem só de mente se faz um homem. Uma mulher. Essa sala precisa se acostumar com as minhas ausências. Porque ainda estou no controle de mim. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Quem me chamou para a escrita.

Naquele dia, não parecia errado deixar de escrever. Alguma coisa me pedia para silenciar e olhar para dentro. Não houve peso, não houve culpa. Não houve pesar por apagar das memórias alheias todas aquelas palavras que meu velho coração falou, um dia. 

Me pergunto se foi mesmo ele, o coração. E, logo, a minha mente racional responde que sim. Era apenas um coração distinto. Como todos aqueles corações que já foram meus, mas passaram, pela inconstância do tempo e graças à transmutação de todas as coisas. Graças!

É um outro coração que volta a escrever, aqui. Um coração-filho (de todos os outros que já fui). Ele, que é ser independente, mas segue carregando indícios de suas criações ancestrais. Ancestralidade que me implorou para escrever outra vez sobre o que a faz pulsar. Cá estou.

Avante, coração!