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domingo, 28 de junho de 2020

Silêncio.

"Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo o planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém."

Raul Seixas não poderia prever que O dia em que a terra parou se tornaria real. Ou previu, vai saber. Lá fora, pararam os dias. Foi como se o tempo houvesse se transformado em algo tão, mas tão novo, que tivemos - todos - dificuldades em reconhecê-lo. Sozinhos, todos. Fazendo, enfim, morada... Em nós mesmos. Nos dias em que a Terra parou.

O tempo - que demoramos a reconhecer nesses dias - começou a perguntar coisas demais. E eu, distraída toda a vida, não sabia que dentro do silêncio que o tempo traz cabe tanta palavra. No quarto bagunçado que a cabeça é, pela primeira vez, as palavras ecoam alto demais, como se há tempos estivessem esperando o lado de fora fazer silêncio. E fez. Nos dias em que a Terra parou.

Ouvi, dias atrás, que estamos todos no mesmo mar revolto, finalmente. Mas, que evidente fique: nunca no mesmo barco. A menina que escreve frases poéticas daquela página bucólica que leio deixou bem claro: tem gente que nem barco tem. É nisso que a gente pensa, quando tem tempo.

Não há lugar onde chegar com isso que, aqui e agora, escrevo. Porque a Terra ainda não voltou a girar. Mas as palavras gritam, dentro. E, a cada dia, mais alto. "Maluco que sou."

Laysla.




terça-feira, 21 de abril de 2020

Um lugar que ninguém mais conhece.


Nunca antes – ao menos não nessa vida -, eu havia mergulhado em águas tão cristalinas. Nesse lugar que só eu conheço, um rio profundo e inerte vive, com a força de tudo aquilo que é animado. Contemplo esse rio profundo, cristalino, que repousa entre duas altas paredes de terra laranja. E mesmo que suas águas não se movimentem, eu posso sentir que ele pulsa. Ele pulsa comigo. Azul. E cristalino. E mais azul. Não sei explicar como.

Tudo nesse rio me convida ao mergulho. E eu vou, como se dele fizesse parte. No meu corpo, corre uma alegria profunda como ele. Uma alegria de contentamento. Uma alegria de “finalmente, tudo está bem”. Alegria de que somos, o rio e eu. Um.

Sua profundidade não me assusta. Eu fluo por ele com a delicadeza de uma barbatana. Mais que isso: eu fluo por ele como se seu movimento fosse o meu. Eu sou a força que o move. E logo ele se desfaz daquela primeira característica com a qual se apresentou a mim... Imóvel, inerte. Vivemos, um no outro. Eu, rio. Ele, eu.

- Ninguém mais conhece esse lugar. – sorrio. Sou rio.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

Pequenos feitos.

Se aqui surgimos foi para viver. E se é para viver, que dentro de cada dia que experimento caiba um tanto de felicidade. E ela pode ser simples. 

Nem todos os dias escreverei um livro. Não serei promovida 365 dias por ano. Uma viagem incrível para um lugar incrível não me aguarda a cada 24 horas. Não posso parir um filho por dia. Nem me sentir linda toda vez que me olhar no espelho. Mas, dá para ser simples. E feliz. Dá para apreciar uma refeição bem feita, mesmo que seja arroz e feijão. Dá para abrir o livro já lido e reler as citações marcantes sublinhadas à lápis. Dá para cantar a minha música favorita do Arnaldo Antunes. Escovar os dentes assim que acordar. Lavar as mãos com sabonete e sentir o perfume (que é comum, mas bom). Aproveitar e já lavar o rosto. Pentear os cabelos com calma. Escrever um verso, que seja, de um novo poema. Dá para dar ouvidos - e colo também - a quem eu amo. E beber um copo d'água fresca antes de me deitar para dormir.

Se a felicidade não puder ser constantemente excepcional, não me importa. Me basta que ela venha - mesmo que em pequenos feitos - todos os dias.

segunda-feira, 22 de julho de 2019

Centelha divina.

Sabe o que é mais triste? É que em minha cabeça ecoa uma voz que sempre pergunta: “Quem você acha que é para tanto?”. Essa voz, que se faz de amiga, mas na verdade é uma traidora, insiste em me fazer sentir que sou menos. Afinal, o que uma mulher de 27 anos, que ainda sabe pouco da vida, teria de necessário, de significante para dizer ao mundo?

São absurdos como esse que sou obrigada a ouvir. E o mais assustador é que calar essa voz parece ser impossível, a depender da força e energia que emano quando a ouço. De certo, tantas outras pessoas também ouvem vozes similares. Elas martelam incertezas, desvalidam potências, bloqueiam o poder de criação que existe dentro, seja a gente quem for, independente de onde viemos ou de onde estamos hoje.

Ouvi, dia desses, uma reflexão bonita de uma terapeuta que, mesmo em um processo de autodesenvolvimento forte e verdadeiro, também “ouve vozes”. Ela disse algo sobre existir uma centelha divina dentro de cada ser humano. Pode parecer pueril, pode parecer até mesmo imaturo, mas essa afirmação ecoou tão forte dentro de mim quanto aquela voz que sempre questiona e duvida. Se eu posso dar ouvidos à voz pessimista, por que então eu não poderia dar uma chance de abraçar uma mensagem doce como essa?

Centelha divina! Que lindo é pensar nisso. Vejo, ao meu redor, exemplares excepcionais do que venha a ser o divino.  Porque existe vida onde quer que eu olhe. No rio que corre há vida.  No sol que nasce e se põe todos os dias há vida.  Na flor que brota “sozinha” num canteiro há vida.  Deve ser isso o que aquela terapeuta chamou de “divino”. E, se existe algo em mim que flui e pede por ser manifestado no mundo, porque não seria mais um exemplar da centelha divina?

Somos viciados em termos o controle de tudo. Viciados em sermos os responsáveis, os criadores, os donos daquilo que vem de dentro. Mas, contrariando essa tendência, assumo: nem tudo aquilo que crio é de minha autoria, pura e simplesmente. Seria muita vaidade dizer que aquilo que manifesto é só meu. Não é.

Existe muito de rio fluindo, de sol nascendo e se pondo, de flor desabrochando nisso tudo.

Centelha divina...

quinta-feira, 11 de julho de 2019

Ouvidos desatentos.

Ando tendo alguns impasses com conversas. Ando, também, muito exigente com elas e tantas outras coisas (que, agora, não vêm ao caso). 

Não tenho tido muitas experiências presenciais. Minha atual rotina de trabalho muito me impacta quanto ao contato físico com os outros. Ando mais virtual que nunca. E, sabe... Eu não estou reclamando. Me sobra, então, bastante energia para prestar atenção nas poucas conversas não-virtuais que tenho em dias livres. 

E o que ocorre (e corrói) é, mais ou menos, assim... 

Lá estou eu, conversa vem, conversa vem (não vai, nesse caso), me perguntando: "Essa pessoa quer mesmo me ouvir?". Algo me diz - observando trejeitos agitados, fala acelerada, pouca calma, aguda entonação - que não. A sensação que sempre acaba me invadindo nessas tais conversas é a de que a muita gente só precisa falar. Falam. Falam. Falam. E vão embora. 

Às vezes, precisam. Afinal, desabafar é mesmo preciso e cura. E, francamente, se assim for, até gosto. Sinal de que esse alguém me considera confiável, digna de ouvir seus sentimentos. E eu posso ouvir. Gosto, mesmo, do desabafo. Mas, se não for, uma conversa não deveria ser "troca"?

O problema só surge quando ela não é uma troca. Torna-se um monólogo. Pergunto, em silêncio: "Ei, você está mesmo me vendo aqui?". Fico procurando pelos olhos do outro, sem sucesso. Toda aquela fala infindável seria apenas o ego tentando provar algo? Sim, procuram provar algo. Geralmente, querem provar que estão... Certos. 

E, assim, eu fico cansada. Exausta, em questão de minutos. A conversa, em essência, tem duas ou mais vozes, diversas opiniões e, obviamente, muitos ouvidos interessados. Deveras, me cansam as pessoas que não querem usar os ouvidos. Para essas, me dá vontade de não mais ceder os meus.

sábado, 9 de março de 2019

Criança sabe ser amigo.

Dos pormenores da vida de adulto, lidar com a amizade é contínua aprendizagem. É que, quando criança, a força da cria[ção]tividade faz com que as amizades nasçam. O solo é fértil e imaculado. Na pureza da ausência de responsabilidades; na espontaneidade do aqui-agora; no prazer inenarrável do "quer brincar comigo?", nasce o amigo. 

Amigo-criança não se preocupa com o que o outro estará pensando dele. Tampouco se pergunta "com quem ele brincará amanhã, senão comigo?". Não há autojulgamento no universo amigável de uma criança. E aí, tudo flui. Até que a gente cresce.

Cresce, junto aos medos sutis que emaranham, dia após dia, a complexidade do que é ser adulto. Então, o amigo-criança dá lugar a um ser disforme, que nem rosto tem; que quer ser simpático, mas quer ser aceito também. Recua. Mais "pensa" a alegria do que, deveras, sente. O adulto, quando se deixa levar, inconsciente, cria um véu de insegurança que envolve suas relações. 

É preciso buscar fundo. É preciso ser vulnerável ao incerto do infantil. Porque o amigo-criança, creio eu, ainda estará lá, se procurar por ele. Sentadinho, quietinho, lá dentro de si. Esperando por alguém que pergunte, sem medo: "quer brincar comigo?". E, então, ele irá. Reflorescido.

quarta-feira, 6 de março de 2019

Numa sala alaranjada.

Acho difícil controlar a mente. Embora digam, com assustadora clareza, que essa é a melhor - senão a única - forma de ser feliz de verdade. Chegamos à conclusão (e quando digo “chegamos” é porque ela realmente partiu de alguém além de mim) de que penso em excesso.

Encaro a minha mente como um lugar. Um lugar para onde me teletransporto, sem controle. E, como ditam as leis da física, um mesmo corpo não pode ocupar dois lugares ao mesmo tempo. Se eu tiver presa “lá dentro”, como posso habitar aqui fora? Parece absurdo dizer que “pensar” pode ser ruim. Mas, é: quando racionalizar se torna um vício e o sentir definha. E é quando os sentidos estão murchos que se torna impossível estar presente. 

Lá dentro – da mente - nem sempre é convidativo. Me lembra uma sala de filmes antigos, cheia de bugigangas. Itens antigos se misturam aos recentemente adquiridos e, assim, fica difícil distinguir do que eu já poderia ter me desfeito. Há coisas que só ocupam espaço. Por vezes, parece ser fim de tarde, mas só imagino... Porque a luz que transpassa às cortinas leves – fechadas - é alaranjada como um pôr de sol. Não chega a ser feia, a sala. Mas, cheia como está, é inóspita, invisitável. E nenhuma sala foi feita para esse fim. Todas anseiam por serem transitáveis (nunca tão receptivas quanto os quartos). Caibo bem nela. Contudo, ainda que tenha uma nostalgia convidativa e uma áurea questionadora sobre os amanhãs, não posso me aconchegar. Preciso vir para o lado de fora.

Nem sempre é hora boa para me retirar no canto alaranjado. Aqui fora, a vida pulsa. Nem só de mente se faz um homem. Uma mulher. Essa sala precisa se acostumar com as minhas ausências. Porque ainda estou no controle de mim. 

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

Quem me chamou para a escrita.

Naquele dia, não parecia errado deixar de escrever. Alguma coisa me pedia para silenciar e olhar para dentro. Não houve peso, não houve culpa. Não houve pesar por apagar das memórias alheias todas aquelas palavras que meu velho coração falou, um dia. 

Me pergunto se foi mesmo ele, o coração. E, logo, a minha mente racional responde que sim. Era apenas um coração distinto. Como todos aqueles corações que já foram meus, mas passaram, pela inconstância do tempo e graças à transmutação de todas as coisas. Graças!

É um outro coração que volta a escrever, aqui. Um coração-filho (de todos os outros que já fui). Ele, que é ser independente, mas segue carregando indícios de suas criações ancestrais. Ancestralidade que me implorou para escrever outra vez sobre o que a faz pulsar. Cá estou.

Avante, coração!