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sábado, 13 de março de 2021

Falta.

Acordei há horas e ainda não tenho nenhuma certeza com a qual contar. Me atenho aos gatos que miam, pedindo por ração fresca; à necessidade de vestir pouca roupa porque faz um calor escaldante; à xícara de café que eu não deveria ter tomado, tanto porque faz calor, quanto porque só aumenta a ansiedade. Vou me apegando às pequenezas do dia, só para ver se - por um minuto que seja - eu me esqueço do que falta. Os encontros, meus pais, meu irmão. Minhas queridas amigas que não vejo... Há quanto tempo não as vejo? As viagens descomprometidas para Minas Gerais e Paraty. Ah, que saudade de cachoeira!

Ligo a TV a fim de que algum ruído me preencha e o que tenho, em contrapartida, são vozes infindáveis que vão me abrindo como mãos que rasgam à força um tecido frágil. Vozes dizendo que a vida escoa. Vozes dizendo que falta. Falta gente. Falta mais gente a cada dia. Desligo a TV e tento me enfurnar num livro. Me encher, nem que seja de palavra lida. E é uma pena que a cabeça não tenha, nessas horas aflitas, o mesmo plano que minhas mãos. O mar está próximo e, pasme, me parece que não o vejo há meses. Onde será que tenho orbitado enquanto a vida lá fora esfarela e tento preencher os dias e respiros com algo de concreto? Onde?!

Tenho certeza de tão poucas coisas... Uma delas é essa: se algo existe é a falta. Me resta, então, deixar a falta aparecer e tentar dormir em mais um noite quente, oca e sem respostas.

Laysla Machado.

quarta-feira, 30 de setembro de 2020

Caldo de ervilha.

 

Há cerca de um ano, Rodolfo se mudou para um condomínio. Ele dizia não ser adepto a essas “coisas de rico”, mas seus nervos sensíveis não deram conta de ouvir os tiros no antigo bairro onde morava.

Desembolsou uma grana alta de suas economias para acertar os três meses de caução e seguiu rumo à "vida mesquinha", porém silenciosa, do condomínio. Já nos primeiros dias em que lá estava, fez questão de conversar com todos os funcionários. Falou sobre o clima, sobre futebol e sobre os problemas psicológicos que enfrentara no passado.

Seu Chico, um dos vigias que conheceu primeiro, sabia bem o que era a sensação de taquicardia, que chamou de “coração saindo pela boca e falta de ar doida que só”. Mas esclareceu a Rodolfo que não tinha tempo para pensar nessas coisas. Precisava ir trabalhar com o coração calmo, acelerado ou sem coração, até. Faltar ao trabalho é que não podia.

Numa noite fria de junho, Rodolfo preparou caldo de ervilha. Gentil que era – um bom homem que enxerga os demais – teve a ideia de oferecê-lo ao Seu Chico. Levou a tigela cheinha até o vigia e, com um sorriso contido no rosto, disse: “Trouxe caldo de ervilha para o senhor”. “Não gosto de caldo de ervilha, obrigado!” – disse Seu Chico, com a calma de quem fala a um amigo.

Rodolfo se esforçou bastante para não parecer contrariado; principalmente, para ele mesmo. Que boa vontade tivera, não? Ora, parece que Seu Chico é gente. E gente daquelas que não gostam de caldo de ervilha, afinal.


- Por Laysla Machado.