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sábado, 13 de março de 2021

Falta.

Acordei há horas e ainda não tenho nenhuma certeza com a qual contar. Me atenho aos gatos que miam, pedindo por ração fresca; à necessidade de vestir pouca roupa porque faz um calor escaldante; à xícara de café que eu não deveria ter tomado, tanto porque faz calor, quanto porque só aumenta a ansiedade. Vou me apegando às pequenezas do dia, só para ver se - por um minuto que seja - eu me esqueço do que falta. Os encontros, meus pais, meu irmão. Minhas queridas amigas que não vejo... Há quanto tempo não as vejo? As viagens descomprometidas para Minas Gerais e Paraty. Ah, que saudade de cachoeira!

Ligo a TV a fim de que algum ruído me preencha e o que tenho, em contrapartida, são vozes infindáveis que vão me abrindo como mãos que rasgam à força um tecido frágil. Vozes dizendo que a vida escoa. Vozes dizendo que falta. Falta gente. Falta mais gente a cada dia. Desligo a TV e tento me enfurnar num livro. Me encher, nem que seja de palavra lida. E é uma pena que a cabeça não tenha, nessas horas aflitas, o mesmo plano que minhas mãos. O mar está próximo e, pasme, me parece que não o vejo há meses. Onde será que tenho orbitado enquanto a vida lá fora esfarela e tento preencher os dias e respiros com algo de concreto? Onde?!

Tenho certeza de tão poucas coisas... Uma delas é essa: se algo existe é a falta. Me resta, então, deixar a falta aparecer e tentar dormir em mais um noite quente, oca e sem respostas.

Laysla Machado.

domingo, 28 de junho de 2020

Silêncio.

"Foi assim
No dia em que todas as pessoas
Do planeta inteiro
Resolveram que ninguém ia sair de casa
Como que se fosse combinado em todo o planeta
Naquele dia, ninguém saiu de casa, ninguém."

Raul Seixas não poderia prever que O dia em que a terra parou se tornaria real. Ou previu, vai saber. Lá fora, pararam os dias. Foi como se o tempo houvesse se transformado em algo tão, mas tão novo, que tivemos - todos - dificuldades em reconhecê-lo. Sozinhos, todos. Fazendo, enfim, morada... Em nós mesmos. Nos dias em que a Terra parou.

O tempo - que demoramos a reconhecer nesses dias - começou a perguntar coisas demais. E eu, distraída toda a vida, não sabia que dentro do silêncio que o tempo traz cabe tanta palavra. No quarto bagunçado que a cabeça é, pela primeira vez, as palavras ecoam alto demais, como se há tempos estivessem esperando o lado de fora fazer silêncio. E fez. Nos dias em que a Terra parou.

Ouvi, dias atrás, que estamos todos no mesmo mar revolto, finalmente. Mas, que evidente fique: nunca no mesmo barco. A menina que escreve frases poéticas daquela página bucólica que leio deixou bem claro: tem gente que nem barco tem. É nisso que a gente pensa, quando tem tempo.

Não há lugar onde chegar com isso que, aqui e agora, escrevo. Porque a Terra ainda não voltou a girar. Mas as palavras gritam, dentro. E, a cada dia, mais alto. "Maluco que sou."

Laysla.